
cena 01: interna.
Acordou, como de costume, as cinco e meia da tarde... seus sonhos, mais uma vez, tinham conduzido-o ao passado, tornando o presente ainda mais insuportável. O quarto escuro, de onde uma brécha de luz vazava pela persiana entre-aberta, trazia a pequena quantidade de oxigênio necessária para diluir o cheiro de cigarro que impregnava o lugar. Apoiou a mão firme na beirada da cama e de lá arrastou a parte inferior do corpo inerte até seu lugar-comum: a cadeira de rodas.
O percurso de seis bruscas empurradas o levou do quarto até a sala, passando pelo corredor inóspito e vázio. Ignorou, como de costume, os quadros e porta-retratos que pelo caminho estavam.
Não havia tomado banho nos últimos 4 dias, nem se barbeado. Havia despedido o enfermeiro que contratára meses antes para lhe auxiliar nas mais banais tarefas do dia-a-dia; mas, ao mesmo tempo, gabava-se mesmo que pra si prórpio, de sua pseudo-independência auto-imposta. Sua residência era um misto de escuridão e mofo, com um mórbido cheiro de urina e cigarro. Não saía de casa há dois meses, não tinha amigos e nenhum contato com familiares; exceto a esporádica visita do filho de dezenove anos, o qual se limitava a chamar de ora "bastardo"; ora "muléque".
Ja na sala, enquanto o computador ligava, ingeriu uma mísera quantia de comida, necessária apenas para seu estômago aceitar a enorme quantidade de remédios em forma de comprimidos que tinha de consumir. Acendeu o primeiro cigarro do dia e frente ao computador sua personalidade forte agora tomava forma.
Acionou seu traficante pelo telefone e esperou que a cocaína chegasse enquanto sorvia goles de seu whisky lentamente.
Minutos depois, pegou a droga que foi deixada dentro de uma caixa junto a uma garrafa de whisky "Grant´s". Esticou diversas fileiras da droga em cima da mesa da sala com a ajuda de um cartão de crédito que não usava mais. Enrolou uma nota de cinquenta reais em forma cilíndrica e antes que começasse a transpirar nas mãos frente a excitação que a presença da droga lhe causava, inalou subitamente duas fileiras da droga.
A pupíla dilatada e o clímax disconexo de informações que bombardiavam sua mente a cada segundo o deixaram em estado eufórico. Esqueceu da cadeira de rodas por alguns instantes e, ali mesmo, na sala, não se conteve e urinou frente a tamanha sensação de euforia e prazer.
O frenesi todo durou cerca de 20 rápidos minutos, e antes que se preparasse para inalar mais quantidade da droga lembrou-se que já se passava das seis da tarde. Lembrou-se que pela primeira vez em anos tinha um encontro com uma mulher...um segundo encontro, mesmo que não-oficialmente, mas ja era algo que podia despertar sua adormecida libido. Cheirou mais uma carreira de cocaína, sorveu mais alguns goles de whisky e entrou na sala de bate-papo onde havia conhecido "Lena". Entrou e esperou... esperou que "Lena" entrasse também. Esperou longos 15 minutos, enquanto digitava mais um e-mail direcionada a ela. Tinha o dom das palavras. Sabia que frente a humilhante situação em que se encontrava, tanto psíquica-física, quanto higiênica; um dependente químico parlisado em uma cadeira de rodas vivendo num ambiente inóspito até mesmo para algumas bactérias e insetos; o universo virtual era uma chance para conhecer alguém. Era, na verdade mesmo, sua única chance. Sabia disso.
A droga o fazia digitar obssessivamente; palavras, versos e frases de um bom gosto não condizente a sua atual aparência.
Havia conhecido "Lena" no dia anterior, e haviam conversado seguidamente madrugada adentro. A conversa com Lena o tinha feito sonhar com sua única paixão até então, uma antiga namorada dos tempos em que ainda podia andar e trepar. Sabia que não tinha a amado, mas havia sido sua única paixão em toda vida. Sabia que o filho que tiveram não era seu, mas fazia de tudo para não odiar o rapaz. Na verdade mesmo, invejava o belo rapaz, que gozava dos prazeres da juventude gastando frenéticamente todo o dinheiro que havia herdado frente a morte prematura da mãe.
Tomou coragem, encarou o computador de frente e chamou Lena que ja estava on-line para retomar o assunto pendente da madrugada anterior. Não havia informado Lena de sua condição penosa; pelo contrário, havia criado uma imagem infinitamente oposta a sua realidade. O uso contínuo e abusivo de cocaína e alcool na noite anterior havia conflitado sua memória...não sabia que assuntos ja havia conversado e que assuntos eram tidos já como "importantes" pelos dois. Isso ja não era novidade em seu dia-a-dia, ja que sua memória recente estava literalmente abalada, e não se lembrava de praticamente nada que acontecêra dias antes. Deixou Lena conduzir o papo...sentiu-se imaturo e sem jeito para com a mulher. Estranhou essa sensação, pois em seu passado fora sempre tido como belo e divertido. Não havia tido uma única relação sexual desde o fatídico acidente que havia vitimado sua ex-namorada. Havia recolhido-se em seu próprio cárcere privado, e de lá, ignorou o mundo por três longos anos. Hesitou por alguns instantes... tomou coragem e pediu que a misteriosa sob o pseudônimo de "Lena" lhe enviasse uma foto. Aceitou o arquivo "Lena1.jpeg" e acendeu mais um cigarro enquanto concluia o download. Ao abrir o arquivo espantou-se. A imagem estampada frente o computador o fez derrubar o cigarro entre as pernas encharcadas de urina. Sua face pastosa tornou-se estática. A imagem da mulher, seu rosto e traços; uma garota que aparentava não mais que vinte e poucos anos; era surrealisticamente igual a imagem de sua ex-namorada e única paixão até então. Entrou em choque. Fez dezenas de associações disconexas em seu cérebro naquele instantes...ameaçou desligar o computador subtamente; porém foi surpreendido pela frase :"- Agora me manda uma foto sua...".
Esse era o momento, tinha de decidir...enviava uma foto atual, preso em uma cadeira de rodas? Inventava uma desculpa?Assumia sua realidade ou se afundava cada vez mais em sua própria cova? Não podia competir com o mundo, sentiu-se menor que tudo e todos, sentiu-se humilhado frente ao prórpio reflexo. Selecionou uma foto do "bastardo" e envioou, despretenciosamente. Na foto, o jovem rapaz de terno era abraçado por duas belas garotas em algum lugar distante e frio do continente europeu. Distante dele, distante e muito de onde ele jamais pudera estar.
"- Meu deus, você é bonito mesmo. São suas namoradas?!?!?"; foi a pergunta seguinte de Lena ao abrir o arquivo.
Novamente sentiu-se inferiorizado... porém aquilo era um elogio. Algo que ele não recebia há anos...flertou com o ego por alguns instantes, saboreou aquele momento. "- Não, são só amigas... amigas de Londres..". gabou-se.
Trocaram mais algumas fotos e elogios mutuamente. Encarou a nova personalidade. Agora frente ao mundo virtual de Lena, ele era um playboy jovem e bonito, que tinha morado na Europa por 1 ano e estava no Brasil para recomeçar a vida. Redefiniu a vida do rapaz, moldou-a a seu modo. Recitou-lhe poemas em italiano e durante a conversa de 4 horas ininterruptas sentiu-se vivo. Drogou-se ainda mais, porém não mais melancólico; não mais depressivo..agora sentia-se bizarramente bem.
continua...
*ouvindo : pink floyd-Echoes
