terça-feira, 11 de novembro de 2008

Drugs to burroughs





De frente pro cortiço escuro e abandonado minha perna treme. Procuro uma campainha...sem sucesso. Nem luz, nem janelas. Tenho que ser rápido- por aqui, se me pegam, a pena é severa.
Bato na porta...e nada. Insisto. Ouço passos. Um vulto surge.
A porta se abre.. de lá do fundo, num resquício de luz, um senhor de camisa, calça e um ganancioso chapéu espera imóvel. Entro.
Ele tira a camisa e o chapéu e me estica a mão. A mão grossa e o braço cheio de escoriações e veias pulsantes. Dou a mão ao velho e me sento. Sento de frente pra ele, mudo.
Gatos por todos os lados, pulando, se coçando, cruzando. Sujeira, muita sujeira; papéis, restos de comida, cigarros e livros. Uma vela acesa ilumina uma máquina de escrever enferrujada. Um cheiro nauseabundo. O velho acende um cigarro e tosse. Eu acendo um cigarro e espero, quieto. Um gato pula em seu colo suado. O velho acaricia o bicho. Suor escorre da sua testa. Outros gatos se juntam a ele, roçam sua perna.

-Trouxe? – Me pergunta ele olhando para os gatos.
- Sim...esta aqui.
- Ótimo.
Silêncio.
Do breu, surge uma figura humana. Para na entrada da porta. Os gatos se atiçam. A figura se aproxima lentamente; parece um menino, um jovem de não mais que vinte anos. Completamente nu, franzino. Parece árabe. Segura uma cinta na mão direita. Aproxima-se do velho e ajoelha.
-Me deseja agora senhor William?
O velho apenas estica o magro braço estafado.
O jovem segura seu braço com uma das mãos, e com a outra, aperta o cinto na altura do bíceps. O velho treme.
Permaneço quieto. Alguns gatos me farejam, rosnam.
O jovem vem até mim esticando as mãos. Dou-lhe o pacote. Ele abre, se senta ao lado do velho e tira uma colher do chão sujo.
Acende um fósforo na parte debaixo da colher. O cheiro é forte. Algo queima borbulhante. O fogo e o cheiro espantam os gatos que somem na escuridão. O jovem nu se levanta e pega uma seringa ao lado da máquina de escrever. Volta ao lado do velho, aperta mais o cinto. O velho parece em transe. Puxa ainda mais o cinto com a boca. A veia do braço salta; ele enfia a seringa carregada veia adentro. Pressiona a seringa, injetando tudo no braço do velho que sussurra algo que não consigo ouvir. O jovem aperta-lhe os mamilos com força e joga a seringa vazia no chão.
Todos quietos.
O velho se levanta, acaricia o rosto do jovem e se senta em frente à máquina de escrever- como um robô. Olha pra cima; um olhar distante, vago.
Posso ir? – pergunto.
O velho me ignora. O jovem vem até mim, me entrega um envelope. Abro. É dinheiro. Levanto-me devagar, e vou até a porta. Ouço um barulho frenético e ritmado. Paro e olho. O velho escreve na máquina e o jovem lhe massageia o pescoço.
Encosto a porta. Abro o envelope e conto o dinheiro. É muito dinheiro.
Corro.



ouvindo : Nirvana - here she comes now - cover Velvet Underground
-